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Dezembro/2009 - Quando o coletivo é perigoso

Herdamos das utopias comunitárias dos séculos anteriores a tendência de afirmar como positivo todo movimento que se faz em nome do coletivo. Romantismo que não se sustenta quando submetemos a crença à reflexão ética. O coletivo não é bom nem ruim em si. A circunstância das ações coletivas, intencionalidades e efeitos é que devem contar para a valoração.

Deveríamos entender como digno o fato de um grupo assumir coletivamente responsabilidades sobre atitudes destrutivas que apenas alguns indivíduos cometeram? Lealdade, dizem alguns otimistas. Espírito de corpo, enunciam outros, desconfiados. Cumplicidade perversa ou ingenuidade temporã, acusam os mais críticos.

Episódio ocorrido com uma das classes de nossa escola é ilustrativo desse impasse. Em fase aguda de teste dos seus limites e dos da instituição escolar, alguns poucos integrantes de uma classe danificaram equipamentos eletrônicos de uso coletivo, “por pura zoação”, como bem justificaram. O grupo, ao ser instado a atuar de forma auto-reguladora e posicionar-se criticamente em relação aos autores da transgressão – o que não se confunde de maneira alguma com delação –, escolheu assumir a responsabilidade coletivamente e proteger da responsabilização aqueles que praticaram a ação danosa para todos alunos da escola, inclusive eles mesmos. Escolha reafirmada mesmo depois de refletir com familiares e educadores. Em carta à comunidade, buscam a reparação e se comprometem com o ressarcimento material, coletivamente.

Lealdade ou medo? O que é que está por detrás dessa escolha?

Tanto uma como outra dessas explicações são intrigantes e igualmente incompletas. Ser leal ao transgressor pode ser louvável numa circunstância em que transgredir tem um sentido libertário, de enfrentamento de uma situação de opressão. “Zoação” não é exatamente uma motivação libertadora, muito ao contrário. Nesse caso, a suposta lealdade se revela mais efetivamente como conivência e reflete o engodo moral em que se encontra tal grupo – sinais de imaturidade tardia?

Medo pode ser outro elemento explicativo. Uns poucos conseguem se impor a muitos. Qual ameaça estaria na base desse comportamento? Mais óbvio é o medo de rejeição da turma, da recusa àqueles que assumem posturas críticas aos “zoadores”. Menos provável em nossa realidade, a ameaça física também poderia ser pensada como fator de constrangimento. De qualquer maneira, então, a opressão estaria no interior do grupo. Relações perigosas essas, não?

Porém, nem uma nem outra explicação satisfaz isoladamente.

Levantamos ainda outra vertente: talvez cada indivíduo queira reservar para si a possibilidade de poder transgredir sem ter que arcar solitariamente com conseqüências. Talvez a ação de defesa coletiva tenha o sentido de construir uma reserva de complacência do grupo para ações potencialmente negativas. Isso é gravíssimo! Pode significar que a infração é latente no grupo e que ele faz questão de cultivá-la. Aquilo que a censura interna individual impede cada um de efetivar por si mesmo, no grupo é liberado e garantido. Devemos contar que a qualquer hora fatos do gênero do praticado recentemente podem voltar a ocorrer?

Como agir educativamente nesse contexto?

Interditar “zoações” é uma evidência que assumimos como autoridade institucional. Mas isso não basta. Convocar membros da comunidade mais diretamente envolvidos para refletir, expor as contradições que a situação envolve e se posicionar é uma iniciativa que valoriza a reflexão e preserva a democracia. Levar o grupo de alunos a pensar em profundidade sobre o ocorrido e a dinâmica que os faz escolher pela responsabilização grupal favorece a tomada de consciência sobre a experiência de enfrentar um dilema ético. Fazer ressoar publicamente essa reflexão tem a intenção de construir história, estabelecer referências. Mas também implica exposição, sujeição aos julgamentos diversos.

Pois bem! Esses são alguns dos meandros de uma gestão educacional transparente, que se ocupa da formação de sujeitos capazes de discernimento moral e consideração do outro. Que venham as ponderações. Serão bem-vindas também as notícias de atuações educativas domésticas que levem em conta os papéis desempenhados por nossos jovens nessas dinâmicas que noticiamos. Cooperação crítica, intercâmbio produtivo e respeito recíproco talvez seja a maneira de fazer nosso coletivo mais amplo não correr o risco de também ser perigoso.

PS – No caso relatado, algo muito alentador foi a manifestação dos demais alunos da escola que, diante da “zoação”, reuniram-se em assembléia e puseram-se a pensar como tornar mais saudáveis as relações com a instituição para não restar espaço para esse tipo de atitudes. Essa é uma dimensão bastante promissora do coletivo!

Silvio Barini Pinto


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