A USINA encontra a obra de Ernesto Neto:

reflexões sobre o tempo

 

“A arte também atinge esse estado celestial que já nada guarda de pessoal nem de racional. À sua maneira, a arte diz o que dizem as crianças. Ela é feita de trajetos e devires, por isso faz mapas, extensivos e intensivos”.

Deleuze, G. O que dizem as crianças. Crítica e Clínica.

                                                                                                                                                                                                       

Aquilo que habita o céu, atinge uma espécie de condição que escapa ao entendimento humano. Nesse sentido, alguns dizem que a arte trata de algo relativo ao divino ou ao sublime e, até mesmo, ao eterno, quase celestial. O que pode significar que a arte diz o que dizem as crianças? Haveria alguma relação entre a criança e a eternidade? A força da arte de alguma maneira está ligada à questão do tempo, já que suporta suas características de imprevisibilidade e aproximação do desconhecido. Sabemos com as crianças da USINA que muitas vezes os pequenos dizem coisas que não são da ordem pessoal ou racional. Com suas múltiplas linguagens, fazem conexões as mais improváveis e inusitadas ao expressarem sua compreensão de mundo e necessidade de justificação da realidade. Parece que o artista ou a criança não precisam responder a lógicas lineares, podem navegar de maneira errante e imprevista na perspectiva da invenção e do novo.


Velejando entre nós

 Na USINA do CSD buscamos compreender as crianças e os gestos infantis na dimensão de sua contemporaneidade, isto é, em sua relação íntima com os acontecimentos vividos pelas crianças. Na infância as experiências são vividas com intensidade e guardam a potência de movimento em sua forma mais sublime. Furar a cronologia que encadeia os eventos banais de nosso cotidiano possibilita essa sublimação. As crianças com seus gestos mergulham de forma vital no fluxo de uma outra experiência na qual não há passado, presente ou futuro. Essa é a sequência da repetição. O que está em jogo é a intensidade do acontecimento como diferença. Percebemos que aquilo que é vivido em uma experiência significativa por uma criança no instante de um acontecimento provoca aberturas inusitadas para criação de mundos imaginários, estéticos ou poéticos com dimensões próprias. São processos criativos que podem nos apontar novos modos de existir e de fazer educação, atravessados pela alegria do vigor da infância.

 


Três cantos e uma dança (Treveste)

 A proposição de experimentos artísticos nos investimentos pedagógicos das práticas usineiras, implicam, em nossa concepção, um gesto de generosidade, no sentido de deixar emergir a eternidade, ainda que brevemente. Nos tantos encontros em ateliês, aulas, projetos, oficinas, brincadeiras, jogos e conversas buscamos criar condições para a proposição contínua e simultânea de ações poéticas em durações peculiares. Nesse sentido, o universo da arte atravessa nossas atividades em suas diversas camadas, expressas, por sua vez, na forma como temos explorado caminhos investigativos que envolvem a educação das sensibilidades e maneiras diferentes de sentir o tempo, conhecer os espaços e construir vínculos. Há um esforço em promover contextos onde se possa criar novos modos de perceber, sentir, pensar as coisas do mundo, sobretudo nas miudezas e pequenas descobertas de nosso dia-a-dia. O modo como funcionamos na USINA, portanto, busca reconhecer e dar lugar às formas distintas das temporalidades próprias dos modos de existir de nossas crianças-acontecimentos.


Cura Bra Cura Té

 

Circleprototemple...!

 Em nossas investigações, nos propomos a trabalhar a partir de uma abordagem sensível, buscando promover contextos que convidem a observar, valorizar e atuar nos detalhes e acontecimentos inesperados que envolvem as formações de subjetividades. O que dá consistência às nossas ambientações e ações são as conexões entre arte e educação. Algumas propostas artísticas se mostram especialmente potentes na produção de conhecimento no âmbito de nossos processos educativos. É o caso do trabalho do artista plástico Ernesto Neto. Os modos de pensar e produzir desse artista já mobilizaram e inspiraram projetos da USINA em diferentes momentos.

 


O sagrado é o amor

 Recentemente, uma visita à exposição Sopro na Pinacoteca do Estado promoveu a oportunidade do contato direto das crianças da USINA com a obra de Ernesto Neto. Esse estudo contribuiu para confirmar algumas conexões percebidas entre questões que atravessam nossas reflexões sobre educação e o pensamento do artista ligado a seus processos criativos, além de abrir outras frentes de perguntas a serem investigadas. A poética do artista convida justamente a uma relação diferente com o tempo. Neto atribui-lhe corporeidade. Ao entrar, passear e, eventualmente, deitar-se em uma de suas instalações, deve apenas estar lá, sentir-se. É pouco, mas pode ser muito. Deixar-se tomar pelo prazer do instante é uma prática negligenciada pela vida contemporânea. Há que se reaprender a estar nas coisas e com as coisas sem nenhuma predestinação produtiva. É a intensidade de um tempo lúdico que abre a possibilidade da poética do artista assumir-se também como um exercício experimental de liberdade. Essa dimensão interessa a nossa proposta educativa de maneira que inventar modos de perturbar Cronos é uma forma potente de subjetivação e liberdade.

        

Cura Brá Cura Té

 É interessante observar como se desdobra a fruição na relação das crianças com as obras de Neto. A sensação mista de liberdade e prazer experimentada corporalmente pelas crianças evidencia uma vivência inusitada com aspectos da natureza, já que as obras trazem com frequência materiais naturais, que se propõem a complementar e requalificar o ser no mundo. As crianças declaram enfaticamente que querem viver mais demoradamente aquelas experiências. Habitar os espaços. Na experiência cronológica de uma visita, a impressão é de que falta tempo para a experiência! Ao sentir cheiros, cores e texturas das mais variadas dá-se um movimento de pensar-se do corpo que assume para si uma reflexividade. Poderíamos dizer da potencialização de um corpo lúdico, ou um corpo experiência. A intensificação das sensações torna possível vislumbrar um sopro de estetização da existência. Quase uma esperança de habitação estética no mundo. Não seria esse o pretencioso objetivo da USINA?



Velejando entre nós

 


Enquanto nada acontece

 Nas obras de Ernesto Neto não há barreiras, limites ou fronteiras. As instalações oferecem áreas de contato permeável. São limiares sensíveis como a pele e quase nos permitem ousar pensar através dos poros. Vimos como as crianças se misturam de corpo inteiro com tal proposta poética. Há uma compreensão que ultrapassa camadas intelectuais. Poderia se arriscar algo como uma possibilidade de experiência que transcende fronteiras sensíveis? Surge um corpo sem centro, sem limites. Infinito. A pele da criança e a pele da obra se colam. Onde começa a obra e onde termina? No corpo? O que é o dentro e o fora? A criança imersa, ativa a obra. Se torna arte. A obra ganha vida. A alegria das crianças ao mover-se pelas obras é visível. Então novas perguntas se abrem. Essa experiência envolve uma forma distinta de apreciação estética? As crianças estariam apreciando uma obra artística? Ou seriam instauradas novas formas de percepção da arte e das coisas do mundo? Em que medida podemos falar do exercício de leitura de obra de arte? De que modo aparece a dimensão da contemplação? Estariam as crianças brincando com a obra? Interagindo, com certeza.

 



Flying Gloup Nave

 Afinal, que natureza de experiências das crianças-acontecimentos, como chamamos nesse contexto, vivem no contato com esse potente trabalho de uma modalidade de arte que poderíamos nomear como contemporânea? Não é raro ouvir dizer que a criança, de modo geral, alcança pouco tempo de concentração na apreciação de uma obra de arte em um espaço expositivo. No entanto, o que vimos com os usineiros foi da ordem de uma conexão plena, profunda. Um encontro feliz das crianças com a arte. Um encontro que aumenta o poder da experiência no fluxo do mundo e potencializa, ativa, inclusive, a obra do artista. Talvez essas questões ajudem a compreender as crianças e os gestos infantis na dimensão de sua contemporaneidade, questão apontada inicialmente quando exploramos as virtualidades da criança que mergulha com todo seu vigor em experiências que expõem dobras originais que, por sua vez, profanam o continuum da cronologia, considerando sua duração, intensidade e potência de movimento.

                                                      

 Flying Gloup Nave

 Assim como propõe Ernesto Neto com sua poética, nos arriscamos continuamente a trabalhar no sentido de diminuir barreiras, limites ou fronteiras. Na USINA, crianças de faixas etárias misturadas circulam nos processos investigativos, o trabalho acentua o hibridismo das linguagens no âmbito de uma proposta curricular que parte do pensamento compreendido de maneira complexa, as temporalidades da gramática escolar são dilatadas, os espaços físicos onde atuamos são flexíveis e dinâmicos. Ações ligadas a um movimento que procura abrir novas formas de comunicação e relacionamento entre todos os envolvidos no processo educativo. O que pode significar assumir a educação pela arte no trabalho com a infância? Pensar que, à sua maneira, arte diz o que dizem as crianças? Inventar novas subjetividades e novas institucionalidades pode ser um caminho, pensar de forma instituinte e não institucional. Pela educação, disseminar a arte na vida. Compreender o ato criativo como uma reinvenção das formas de vida nas sociedades contemporâneas. Trata-se de confiar na capacidade das invenções humanas, mesmo naqueles gestos que vêm dos bem pequenos. Acreditar nos possíveis modos de expressão e relações inusitadas produzidos pelas crianças em diálogo constante com a cultura.

 

Copulônia

                                                                                                                                                                                                                                                                    

O silêncio é uma forma de oração

 

Cinthia Manzano

Junho de 2019

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