LIÇÕES DE ABISMO

 I

 De manhã, saímos de nossas casas rumo a uma grande aventura. Mal sabíamos o que iríamos enfrentar. O nosso primeiro desafio foi no ônibus, onde tivemos que lidar com o desassossego. Foi um grande alívio quando saímos do ônibus e pisamos no Quilombo Ribeirão Grande/ Terra seca, onde experimentamos novos sabores. 

Deslocar-se, além de pressupor um movimento de mudança em direção a um lugar outro, pressupõe um processo contínuo de ampliação do olhar que investimos sobre o mundo. Quando nos deslocamos, ao mesmo tempo que iniciamos uma travessia rumo ao desconhecido, também começamos a redesenhar nossa própria subjetividade. Assim, espaço externo e interno deixam de ser lidos como esferas antagônicas e passam a confundir-se, borrando as fronteiras entre o que está dentro e o que está fora.

 Sair da escola rumo ao campo torna-se, então, uma possibilidade de enxergar as possibilidades de aprendizagem que diferentes localidades nos têm a oferecer. Estudar fora de sala de aula nos motiva a investigar a realidade que nos envolve, tendo em vista os detalhes que a compõem. Estudar fora de sala de aula nos motiva ainda a perceber cada vestígio como elemento participante da nossa própria subjetividade, como se cada pormenor fisgado por nossos olhos logo se tornasse uma nova célula do nosso corpo.  

II 

 As marcas deixadas por nossos pés enquanto caminhávamos pelos territórios quilombolas foram devolvidas em forma de pegadas em nossa própria interioridade. O mundo novo que se abria no horizonte despertou nossa atenção para a diversidade que constitui as existências humanas. De saída, nossa experiência no Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca nos ofereceu a possibilidade de travar contato com novas formas de  relacionar-se com o outro e com o mundo.

 (Oficina de açúcar - Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca)

Esse quilombo abriu nossos olhos: vimos um novo mundo diante de nós. Nossa sensação era indescritível. Eles pensavam no coletivo, enquanto nós costumamos pensar apenas no indivíduo. Vimos o modo como eles trabalham, sempre cooperando com a natureza.

Ao nos depararmos com outros modelos de sociedade somos convidados a pôr em dúvida a incontestabilidade de todo e qualquer modo de existir no mundo. Criamos e podemos (re)criar formas de viver.

Com efeito, mover-se de um lugar a outro pode vir junto a outro gesto, capaz de nos fazer perceber as tensões a partir das quais o mundo se revolve. Em decorrência desse gesto desviante, as supostas verdades que antes assumíamos começam a ruir. A ação criadora deixa de ser tomada como um dado irrevogável para se converter em uma atividade ininterrupta.

Pôr os pés na lama e recolher com as mãos um punhado de barro, que serviria de material para construção de uma casa, trouxe-nos a liberdade de imaginar outras casas, cuja edificação gostaríamos de realizar. Em vez de nos contentarmos com traçados previamente definidos, passamos a desejar construir uma casa ainda não desenhada. Uma casa que se reconstrói a todo momento. Interminável.

 

 

(Oficina de barreamento - Quilombo Ivaporanduva)

Entrar num quilombo é como passar por um portal que nos leva a uma realidade outra, muito diferente da nossa. Abismo!

O primeiro impacto é a felicidade simples. Nem sempre a quantidade está ligada à alegria. Ser é melhor que ter. A vida cotidiana é simples, boa, calma, livre.  A convivência é colaborativa, não competitiva. Todos plantam e dividem os frutos: o ganho de um é o ganho de todos. Respeito, amizade, harmonia, desapego aos bens materiais – o que importa é o humano.

Sem pressa, os quilombolas não sobrecarregam seu tempo, vivem um dia de cada vez. 

III 

Se, por um lado, a experiência nas comunidades quilombolas - Ribeirão Grande/Terra Seca e Ivaporanduva - alargou nossa percepção de mundo; por outro, foi preciso também experimentar a completa ausência de luz no interior das cavernas. Sem abandonar o auxílio prestado pela artificial luz das lanternas, desligamos por alguns instantes o equipamento e nos permitimos enxergar no escuro.

No dia seguinte nos deparamos com a escuridão: fomos a uma caverna. Com nossos pés molhados, sentimos frio. Porém isso foi o de menos, pois nos divertimos muito. Lá pudemos escutar o som de morcegos e outros ruídos. O mais impressionante foi a cachoeira que encontramos dentro de uma das cavernas. No caminho, algumas pessoas escorregaram por causa das pedras. Enquanto caminhávamos, experimentamos e superamos antigos medos. Criamos novos.

 (Caverna Morro Preto - PETAR) 

De olhos fechados, vimos acender em cada um de nós as luzes da imaginação. A ausente claridade abriu espaço para que nós pudéssemos iluminar sonhos que antes guardávamos no interior de nossa própria caverna. Sonhos por vezes esquecidos, ofuscados pelo cego clarão. Sem o brilho que ofusca nem a sombra que engana, talvez pudéssemos começar a ensaiar mundos novos, cujos contornos nasceriam dentro de nós mesmos.

Imagine quantas cavernas a gente ainda não descobriu no mundo. Inexploradas. Cavernas de sonhos esquecidos[1]. Quanto a sonhar!? O novo, o desconhecido, o extraordinário, o mágico: estalactites e estalagmites formam imagens capazes de nos fazer desver, criar, transver[2] a realidade. Ciência e poesia – um mergulho no maravilhoso subterrâneo do planeta (ou de nós mesmos?)

Por: Professores  e alunos do 6º ano do Colégio São Domingos

 

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[1] CAVERNA de sonhos esquecidos. Direção de Werner Herzog. Estados Unidos da América: Creative Differences, 2010.

[2] BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. 

 

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