O ponto de vista do oficineiro...

 

Ao nos debruçar coletivamente sobre o projeto do que viria a ser a USINA, pensamos em convidar para residências artísticas naquele espaço, ao lado das crianças, gente com habilidades diversas. O primeiro artista seria o “Rebenta”, pedreiro que atuou na reforma da casa e sabe dar forma de bichos às madeiras usadas na obra. Assim ocorre, apesar do Rebenta furar. Habilidades de Joana e Brasilino, funcionários da escola, têm sido requeridas. Mães e avós cortam, costuram e bordam. Não podia imaginar que seria eu também convidado para “oficinar”. Mas fui. Algum pequeno lembrador assoprou que sou aprendiz de marceneiro e lá estive eu a ajudar no corte das madeiras para fazer brinquedos “a la Torres Garcia”, artista uruguaio que eles descobriram. Fiz o que me estava ao alcance em uma meia dúzia de encontros. O que resultou disso as crianças é que vão contar. Eu mesmo fiquei foi com o aconchego da convivência. Estava ali, a prestar serviço e achar soluções rápidas, às vezes precárias, para seus projetos – estes sim, sofisticados. Enquanto ticoticava os contornos, vivi intensamente os abraços gratuitos, as frustrações de quem esperava imediatez na execução, as necessidades de adequar desenhos e intenções, a incontrolável tentação de soprar o pó das madeiras bem no meu nariz, as confidências de vidas vividas fora da escola – que guardarei a sete chaves, juro –, e  o fenômeno de ver as crianças me estranhando quando cometi a imprudência de colocar máscara para evitar a poeira da serragem, o que fez esconder boa parte de minha expressão facial. Logo, aboli o adereço ignóbil. Eu era um prestador de serviços, mas eles pediam mais que o serviço prestado. Imprescindível era que nossas subjetividades estivessem ali integrais, visíveis, disponíveis para as trocas afetivas. USINA de pulsações! Ninguém sai dali o mesmo que entrou. Vou ver se afino meu suingue vital ao compasso dessa gente que sabe bem produzir encontros potencializadores porque autênticos e alegres.

 

 

Silvio Barini Pinto

 

 

O relato da professora...

 

 

A essência do brincar não é um “ fazer como se”, mas um “fazer sempre de novo”, transformação da experiência e hábito.

 

Walter Benjamin

 

Durante as manhãs de quarta-feira na Usina, as crianças vivenciaram uma experiência de trocas singulares. Tudo começou pelo desejo de construir brinquedos de madeira. Resolvi levar o livro Joguetes do artista plástico Torres Garcia para que pudéssemos pensar o processo de construção. O livro ilustra alguns dos processos do artista; há imagens de desenhos dos protótipos de brinquedos e fotografias deles já prontos. “Olha que legal, ele fez um carro que gira as rodas”, “Nossa, esse boneco se mexe, eu quero fazer um igualzinho”. “ Mas, Gabi, como a gente faz isso?”

 

Esta pergunta suscitou-me outras, para que assim, pudéssemos investigar essa artesania. “Bom, primeiro precisamos pensar o que é necessário para construir brinquedos de madeira. Quem tem alguma pista?”

 

“Precisamos de madeira!” Achei uma boa resposta e em seguida outra pergunta me veio. “Sim, mas quem irá cortar a madeira?”

 

“Um marceneiro”, devolvi outra pergunta: “ótimo, onde podemos encontrar um?”. Uma criança recém chegada no São Domingos disse: “na escola, podemos chamar o Silvio, o diretor. Soube que ele é marceneiro, até machucou o dedo uma vez fazendo coisas com madeira.”

 

Assim começou nossa viagem. As crianças fizeram desenhos do que gostariam de projetar. Silvio veio nos encontrar com seu “artefato”; cortador de madeira, furadeira, retalhos de madeira, máscara e começou olhar atendo aqueles desenhos. Alguns desenhos estavam pequenos. Nós e as crianças começamos a pensar que não seria possível cortá-los por conta do tamanho. “Qual será a melhor madeira?” Esse processo durou uns três encontros. Depois chegaram as madeiras certas e começou o corte já com os desenhos das crianças projetadas nos pedaços de madeira. “O meu vai mexer as patinhas”. “ Quero que meu ratinho mexa as patinhas e o bigode”. “A asa do meu dragão tem que ficar esticada”. 

 

O que mais me chamou a atenção nesse projeto não foi apenas as aprendizagens garantidas como o desenho enquanto linguagem materializado na madeira. Foi sobretudo a troca dessas experiências. Ali, diretor, professora e alunos mergulhados em um universo particular, trocaram seus saberes, olhares, certezas e dúvidas. Fizemos um projeto pautado também nas relações, no sensível. Logo as crianças passaram a olhar o Silvio, não mais como diretor, mas também como parceiro, amigo. “Sabia que amanhã é meu aniversário?” “ Posso te dar um abraço, eu amo abraçar as pessoas”.

 

Enquanto a madeira era cortada, relações eram construídas: brincávamos, construíamos novos brinquedos com os retalhos, fazíamos piadas, demos muitas risadas... Aprendemos a lidar com o tempo, com a espera, com a parceria e, sobretudo, com o fazer junto. O pensamento coletivo, a troca, e o respeito, coisas tão raras e tão fundamentais para nós.

 

Gabriela Mafud

 

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