Vãos expostos do lugar comum

Silvio Barini Pinto

Admite-se padeiro Um que faça sonhos. Que faça o pão com alma. Que aos clientes traga força para brincar o dia inteiro, para alimentar a esperança. [...]

Trecho de “Classificados Poéticos” de João Menezes Lima (9º ano)

Vão-se os tempos em que utopias abundavam e enchiam de ânimo as esquinas, fábricas, bares, escolas, universidades. Não que a apatia tenha nos dominado. O que há de sobra, para o momento, é consciência cética.

É farta e justificada a recusa do jogo político com cartas marcadas e valorização da trapaça. Afinal, a coerência primordial entre princípios e meios, ética e escolhas, compromisso e representação ainda deve ser, supõe-se, a razão de ser da ágora – sede idealizada do jogo limpo em que projetos de sociedade são cotejados. Lugar comum? Ilusões perdidas? Sonhos com prazos vencidos?

Talvez não. Pode ser esse o ponto de recomeço e esperança! Fase de um ciclo vital. Durante a existência social, há quem diga e nos é oportuno lembrar, passamos pela condição de camelos – que carregam a tradição e os ditos impostos –; nos transmutamos em leão – que, irado diante de toda a ordem estabelecida, ruge, reage agressivamente achando que ao promover destruição produz liberdade.

Frente a tantas ruínas produzidas é que se apresenta a chance de nos exercitar na condição de crianças outra vez.

Encarnamos a infância para recolher os destroços e fazer deles peças de um outro jogo que convoca novas construções, outras lógicas, novo reconhecimento de parceiros – abrindo a sorte para a reinvenção de sonhos e paixões.

Assim como as crianças, ensaiamos na brincadeira a transformação do mundo todo. Mudamos antes o mundo em nós mesmos. Empregamos o lúdico como vacina contra a mesmice e a razão cínica.

Foi assim que, quando o MASP pediu uma mão para refletir Histórias da Infância, enfiamos o pé na jaca e, além de produzir o audioguia da exposição narrado por alunos, lançamos, de quebra, a provocação Brincadeiras em Vão?, pensada como uma ocupação cultural do espaço aberto do museu.

Resposta: nada em vão! Tudo no vão livre do MASP foi significativo. Ocupamos coletivamente o espaço público, coletivizamos a brincadeira corporal, o brincar com palavras nos “homens-sanduíche” portadores de Classificados Poéticos. Buscamos Pontos de Fuga para aliviar o vício de nossos olhares, produzimos brinquedos e Olhos Divinos, dialogamos com os moradores e frequentadores do vão livre e os envolvemos nas atividades – num encontro horizontal, que sinaliza a convivência respeitosa como possibilidade de afirmar, entre nós, a humanidade.

As cores e palavras de ordem saturadas foram revestidas com Lambe-lambes de gravuras produzidas pelas crianças e textos de jovens poetas. Juntamos idades, gêneros e modos na ciranda musicada do tamanho da imensa marquise. Com nossa energia, revestimos, assim, um espaço referência da cidade com peles distintas – verdadeiro palimpsesto.

Vivemos tudo isso de maneira única e fugaz – contingências de toda paixão. Ocupamos o vão como se devem ocupar os vãos: manifestando uma condição política extrema, a da afinidade eletiva de princípios e de ânimas.

Oferecemos uma outra narrativa ao urbano comum, como nós. Durará o tempo que lhes for dado cultivo. Ou não. Pode ser que se esvaia como as bolhas de sabão que fizemos com os pequenos. Fato é que ousamos conspirar a favor da alegria, da poesia, da existência como obra de arte. Pusemo-nos a “fazer arte”, como criança vitalizada. A experiência vivida nessa intensidade instala-se na memória e dela podemos fazer histórias. Quiçá!

Ao apreciar as Aranhas de fios e jatobás dispostas sobre um tecido esticado no piso por um dos moradores do vão, as tive apresentadas pelos nomes próprios com que ele as batizara. Perguntei se as comercializava, e ele – as exponho! E vocês – disse ainda – o que expõem? E eu – a nós mesmos!

Raras vezes na vida experimentei o tipo de compreensão que se instalou naquela comunicação despretensiosa.

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